Ao longo da minha carreira no mercado de carbono, frequentemente recebo uma pergunta aparentemente simples:
“Qual standard devemos escolher para registrar nosso projeto?”
À primeira vista, parece uma decisão técnica ou operacional. Algo que viria apenas depois que o projeto já estivesse desenhado.
Mas depois de mais de 20 anos trabalhando com projetos de carbono, auditorias, certificação internacional e interagindo com alguns dos maiores compradores de créditos de carbono do mundo, posso afirmar com bastante convicção:
A escolha do standard é uma decisão estratégica, e não apenas técnica.
E muitos projetos falham em capturar valor no mercado exatamente porque essa decisão é tomada da forma errada.
Uma das coisas que mais observo ao trabalhar com desenvolvedores de projetos e investidores é uma suposição equivocada:
A primeira pergunta que poucos fazem: qual é o perfil do projeto?
a ideia de que sempre é possível escolher qualquer standard.
Na prática, isso raramente acontece.
Nem todo projeto pode ser desenvolvido em qualquer programa de carbono. Cada standard possui:
- metodologias específicas
- critérios de elegibilidade
- requisitos técnicos
- tipos de atividades aceitas
Por isso, a primeira pergunta estratégica não deveria ser “qual standard escolher?”
A pergunta correta é:
“Em qual standard este projeto realmente se encaixa?”
Em muitos casos, o próprio perfil do projeto já limita as opções.
Por exemplo:
- certos projetos de florestais podem se encaixar melhor em determinados programas
- alguns projetos energéticos podem ter metodologias disponíveis em apenas um ou dois standards
- projetos emergentes podem depender de frameworks mais flexíveis
Portanto, o primeiro passo é sempre analisar o perfil técnico do projeto e identificar quais standards realmente são viáveis.
Somente depois dessa análise faz sentido discutir estratégia.
A segunda pergunta estratégica: para quem você quer vender os créditos?
Esse é um ponto que vejo ser ignorado com muita frequência.
Depois de trabalhar nos últimos anos com alguns dos maiores compradores de créditos de carbono e também com auditorias de projetos, uma coisa ficou muito clara:
o mercado não compra todos os tipos de crédito da mesma forma.
Cada comprador possui preferências muito específicas.
Alguns compradores priorizam:
- certos tipos de projetos
- determinados standards
- impacto social ou biodiversidade
- créditos mais baratos para compensação
- projetos altamente com forte integridade climática e topa mais bem mais por isso
Por isso, a segunda pergunta fundamental é:
Para quem eu quero vender esses créditos?
Porque desenvolver um projeto sem entender o perfil do comprador pode gerar um problema sério de liquidez no futuro.
Vejo com frequência situações como esta:
Um desenvolvedor decide estruturar um projeto em um determinado standard simplesmente porque ele parece mais popular ou mais conhecido.
Mas quando os créditos são emitidos, o perfil de compradores interessados naquele tipo de projeto está concentrado em outro standard.
O resultado?
Os créditos existem, mas a demanda é limitada.
Desenvolver o projeto com o mercado em mente
Uma abordagem muito mais estratégica é inverter a lógica.
Em vez de perguntar:
“Qual standard eu gosto mais?”
A pergunta deveria ser:
“Qual tipo de comprador eu quero atingir?”
E então trabalhar o projeto para atender esse mercado.
Isso significa entender:
- quem são os compradores potenciais
- quais standards eles preferem
- qual nível de integridade eles exigem
- qual faixa de preço eles estão dispostos a pagar
Muitos compradores institucionais já possuem políticas internas claras sobre quais créditos podem ou não comprar.
Quando o projeto é estruturado com esse entendimento desde o início, as chances de liquidez aumentam significativamente.
A importância da integridade do standard
Outro ponto essencial na escolha de um standard é avaliar a credibilidade institucional do programa.
Nem todos os standards possuem o mesmo nível de governança, independência e aceitação de mercado.
Ao avaliar um standard, algumas perguntas importantes incluem:
- O programa possui governança independente?
- Existe separação clara entre desenvolvedores e auditores?
- Os processos de validação e verificação são robustos?
- Existe transparência nos registros e documentação?
- E os prazos para registro?
A integridade do standard impacta diretamente:
* a confiança do comprador
* a reputação do crédito
* a capacidade de venda no mercado internacional
Um indicador importante: o papel do ICVCM
Hoje, um dos referenciais mais importantes para avaliar a qualidade de programas de carbono é o Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM).
O ICVCM criou os Core Carbon Principles (CCPs), que estabelecem critérios de integridade para programas de carbono. Eles avaliam os programas e publicam a lista dos
Por isso, uma recomendação prática que sempre faço é:
verificar se o standard está aprovado pelo ICVCM ou se está em processo de avaliação.
Isso não significa que outros programas não possam ter valor.
Mas, quando lidamos com grandes compradores corporativos e investidores institucionais, essa referência está se tornando cada vez mais relevante.
Especialmente para compradores que procuram:
- créditos de alta integridade
- projetos com impacto social real
- programas com governança sólida
Uma tendência clara: compradores estão se tornando mais sofisticados
O mercado de carbono está amadurecendo rapidamente.
Há alguns anos, muitos compradores simplesmente buscavam créditos para compensação.
Hoje, a situação é diferente.
Os grandes compradores estão avaliando:
- impacto social
- transparência do projeto
- credibilidade do standard
- integridade climática
- alinhamento com frameworks internacionais
Isso significa que a estratégia de desenvolvimento de projetos precisa acompanhar essa evolução.
Projetos desenvolvidos sem uma visão estratégica de mercado podem enfrentar dificuldades para encontrar compradores no futuro.
A escolha do standard não deve ser tratada apenas como uma decisão técnica.
Ela envolve três perguntas estratégicas fundamentais:
1. Qual é o perfil técnico do projeto?
Em quais standards ele realmente pode ser desenvolvido?
2. Para quem eu quero vender os créditos?
Qual é o perfil do comprador?
3. Qual standard oferece credibilidade e demanda de mercado?
Quando essas três dimensões são consideradas juntas, o projeto tem muito mais chances de gerar créditos que realmente tenham valor e liquidez.
E no mercado de carbono, liquidez é tão importante quanto integridade.
Estamos entrando em uma nova fase do mercado de carbono.
Uma fase em que qualidade, governança e estratégia de mercado serão fatores determinantes para o sucesso dos projetos.
Para desenvolvedores, investidores e empresas, entender como escolher o standard certo deixou de ser apenas uma decisão operacional.
Passou a ser uma decisão estratégica de negócio.
Se sua empresa quer entender como entrar no mercado de carbono de forma estratégica, hoje também oferecemos um programa de mentoria dedicado a empresas e executivos que desejam compreender as oportunidades, os riscos e as decisões necessárias para atuar nesse mercado.
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Geisa Principe